segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ELOGIO DA SERENIDADE

Este é o título de um dos melhores ensaios do filósofo italiano NORBERTO BOBBIO (1909 –2004) : “ Elogio da Serenidade”.
No Brasil esta belissimamente polêmica lição de Filosofia de Vida se encontra num livro chamado “ Elogio da Serenidade e outros escritos morais”, de Norberto Bobbio, traduzido por Marco Aurélio Nogueira, para a Editora Unesp.Estou trazendo aqui, a seguir, alguns trechos selecionados do referido ensaio, para estimular a reflexão.
Destaco inicialmente : “ Acima de tudo a serenidade é o contrário da arrogância, entendida como opinião exagerada sobre os próprios méritos, que justifica a prepotência. O indivíduo sereno não tem grande opinião sobre si mesmo, não porque se desestime, mas porque é mais propenso a acreditar nas misérias que na grandeza do homem, e se vê como um homem igual a todos os demais”. E o filósofo apresenta uma outra antítese: “ Com maior razão, a serenidade é contrária à insolência, que é a arrogância ostentada. O indivíduo sereno não ostenta nada, nem sequer a própria serenidade: a ostentação, ou seja, o exibir vistosamente, descaradamente, as próprias alegadas virtudes, é por si só um vício. A virtude ostentada converte-se em seu contrário.”. E estimula o debate: “ Quem ostenta a própria caridade ressente-se da falta de caridade. Quem ostenta a própria inteligência é geralmente um estúpido.”. Prossegue com mais uma antítese: “ Com mais razão ainda, a serenidade é o contrário da prepotência. Digo “com mais razão” porque a prepotência é ainda pior do que a insolência. A prepotência é abuso de potência não só ostentada, mas concretamente exercida. O insolente exibe sua potência, o poder que tem de te esmagar do mesmo modo que se esmaga uma mosca com o dedo ou o verme com o pé.”.E continua: “ O prepotente pratica esta potência, por meio de todo tipo de abusos e excessos,de atos de domínio arbitrário e, quando necessário, cruel. O sereno é, ao contrário, aquele que “ deixa o outro ser o que é” , ainda quando o outro é o arrogante, o insolente, o prepotente. Não entra em contato com os outros com o propósito de competir, de criar conflito, e ao final, de vencer. Está completamente fora do espírito da competição,da concorrência, da rivalidade, e, portanto, também, da vitória.”
E, mais adiante : “ O sereno não guarda rancor, não é vingativo, não sente aversão por ninguém. Não continua a remoer as ofensas recebidas, a alimentar o ódio , a reabrir as feridas. Para ficar em paz consigo mesmo, deve estar antes de tudo em paz com os outros. Jamais é ele quem abre fogo; e se os outros o abrem, não se deixa por ele queimar, mesmo quando não consegue apaga-lo. Atravessa o fogo sem se queimar, a tempestade dos sentimentos sem se alterar, mantendo os próprios critérios, a própria compostura, a própria disponibilidade.” .
Prossegue: “ O homem sereno é tranqüilo, mas não submisso, repito, e nem mesmo afável: na afabilidade há uma certa grosseria ou falta de refinamento na avaliação dos outros. O afável é um crédulo, ou ao menos é alguém que não tem tanta malícia para suspeitar da possível malícia dos outros.”
E pondera: “ Não tenho dúvidas de que a serenidade é uma virtude.”
Indago: quem de nós se habilita mesmo , de forma efetiva e cotidiana, à serenidade?

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